PROSOPOPÉIA

 

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Wednesday, June 25, 2003

 
Esse Prosopopéia parece jogado às traças. Voltemos, portanto, às atividades. Sobre o quê nós vamos conversar hoje? Poderíamos falar de futebol, mas a Seleção está tão medonha que não vale a pena. Então vamos falar de política. Segue um texto que vai deixar o Paulão tão tanto contente a ponto de subir e descer no plano inclinado de sua cada umas dez vezes.

Nova dupla caipira: Ratinho e Zé Dirceu

Roberto M. Moura

O chefe da Casa Civil podia ter poupado seus antigos companheiros, os cinqüenta milhões de eleitores do presidente Lula e, mais que tudo, sua própria biografia do espetáculo deprimente que foi a visita a Cruzeiro D'Oeste, interior do Paraná, na semana passada. Ali, no cenário em que reconstruiu a vida após os anos de perseguição da ditadura o nosso José Dirceu permitiu-se ser fotografado num palanque ao lado do radialista Carlos Massa, o Ratinho, no lançamento da campanha do filho, José Carlos Becker, o Zeca, de 25 anos, a prefeitura da cidade.
Além da precipitação do ato eleitoreiro (ou já estamos em campanha e ninguém me avisou?), o chefe da Casa Civil jogou todo o peso do cargo numa jogada que soa como clientelismo e nepotismo. Sim, só o peso do cargo explica que a efeméride tenha sido prestigiada pelo governador Roberto Requião, da legenda de aluguel PMDB, além dos prefeitos de cinqüenta outras cidades paranaenses e do presidente da Itaipu Binacional, Jorge Samek. Tudo bem, a agenda do presidente de uma das mais estratégicas empresas do País não tinha nada mais importante naquele dia que prestigiar o convescote de um menino de biografia desconhecida e recém-saído dos cueiros.
A festa de lançamento foi bancada por Ratinho - e José Dirceu, do palanque, agradeceu publicamente. Bem, se Cruzeiro D'Oeste sequer figura no "Guia Quatro Rodas", se o Google informa apenas sobre alguns dados agrícolas de lá, que interesse poderá ter movido o radialista? Uma amizade profunda pela família? Uma adoração pelo pai do Zeca? A certeza de que a cidade, nas mãos do menino, vai se transformar numa Ribeirão Preto? Ou, como o não menos Gugu, Ratinho também sonha com uma concessão, uma emissorazinha ali na frente?
La-men-tá-vel. De José Dirceu, espera-se que estivesse usando o talento para fazer do Brasil um país em que os Ratinhos desaparecessem da cena nacional, não que posasse ao lado desse mesmo Ratinho, agradecendo sua ajuda no mesmo jogo populista e demagógico da política velha que se prevalece da ignorância do eleitor. Afinal, é o mesmo José Dirceu que se investe da função de juiz supremo dos outros petistas e fala em traição, como se livre de pecado para atirar a primeira pedra.
Do Ratinho, de quem nenhum homem de bem pode esperar nada, ouvi certa vez pelo menos uma autocrítica perfeita: "o dia em que consertarem o Brasil, e quando todo mundo tiver educação e cultura, não haverá lugar para mim na tevê". Entre tantas outras esperanças, milhões de eleitores apostaram também nisso - e agora, ao som do hit brega "Feiticeira", que animou a festinha, vão se acostumando à idéia de que vicejam, dentro do próprio Palácio do Planalto, convicções e métodos que assustam pela indigência mental e agridem pelo descaso político e social.
José Dirceu pode justificar a si e ao próprio governo: se Zezé di Camargo e Luciano foram tão usados na campanha e na cerimônia de posse - então, a ninguém é dado alegar ter sido completamente enganado.

Eu e uns amigos estamos lançando um jornal na faculdade, o Alto Falante. Aí está a primeira entrevista.

"Nem Babá, nem baba-ovo”. Esta foi a definição encontrada pelo deputado federal Chico Alencar (PT) para fugir do rótulo de radical dentro do partido. Aos 51 anos, dois mandatos como vereador e um como deputado federal, Chico fala, nesta entrevista, da reforma da previdência, de greve na UFF e do novo desafio de ser parlamentar da situação. Dá nota 6 para os seis primeiros meses de governo Lula e não esconde o desapontamento por não saber se todos os membros do PT – partido pelo qual é filiado há 16 anos – defendem a luta por uma sociedade mais igualitária e plural. “Mas há esperança”, acredita, apontando o segundo semestre como “decisivo para o governo Lula”.

Alguns pontos da Reforma da Previdência proposta pelo governo – como a criação de um sistema único para trabalhadores e servidores da iniciativa privada – não estão sendo bem vistos pela categoria. Recentemente, o presidente do PT, José Genoino, disse que "as razões para os servidores criticarem a reforma são a partir dos seus interesses; as do Governo, ao defendê-la, são a partir das necessidades gerais do País e da população brasileira". Você concorda com Genoino?

Chico Alencar – Em parte. Claro que toda categoria, segmento, setor profissional, classe, tem uma visão a partir do seu interesse. Isto é natural: todo ponto de vista é a vista de um determinado ponto. Mas... e daí? Na outra ponta, o Estado, isto é, os governos, não necessariamente têm um olhar universal. Esse discurso de necessidades da sociedade sempre foi usado para justificar dominações e prevalência dos interesses particularistas, desde o Absolutismo. A questão está em que a Reforma da Previdência proposta não é bem uma reforma, e sim alterações, em geral para pior, no regime próprio dos servidores públicos. Estamos travando uma batalha, dentro do próprio PT,
para impedir que a mudança constitucional tenha viés privatista e desestruturador do serviço público. É imperioso não confundir direitos funcionais, justos, com privilégios, como os que a Magistratura, em alguns casos, tem e quer manter.

Os professores da UFF aprovaram greve a partir do dia 8. Será a primeira greve de trabalhadores em um governo de esquerda. Você, que cursou História na universidade e já sofreu com greves, considera acertada a decisão dos professores?

Chico – Greve é instrumento de luta tão precioso que precisa ser participativa, mobilizadora, provocadora da sociedade. Não pode ser um passeio, um agito inconseqüente. Greve de educadores exige caráter político-pedagógico. Quanto estudei na UFF, na década de 70, greve era proibida pela ditadura, dava cadeia. O problema de muitas greves é a inércia de muitos, que as tomam como férias, tempo de "cuidar da vida", descanso. É decisivo envolver alunos e comunidade. Sem isso não dá, não tem repercussão. Aulas públicas, UFF na Praça, assembléias lotadas, com 2/3 da categoria presente, seminários, atividades culturais, vigílias, tudo isso tem que ser preparado e feito, até para a paralisação ter efeito. Governo de esquerda tem obrigação de dialogar com as categorias paradas. E ficar angustiado em busca de solução, tomando cada dia sem aula como uma faca no coração da educação. Os governos conservadores são insensíveis, alguns até gostam da "economia" de custeio que uma greve provoca... Acontecendo greve no governo Lula, será uma experiência dolorosa e, espero, rica para ambas as partes. Só não entendi a cronologia, pois pelos meus cálculos as mudanças na Previdência estarão sendo votadas em plenário, com otimismo, em meados de agosto.

Está gostando de trabalhar em Brasília? Quais as diferenças da Câmara em relação à Assembléia Legislativa do Rio?

Chico – Brasília é poder longe do povo, das pressões e apreensões cotidianas, ao contrário dos parlamentos estaduais e municipais. Mas no Congresso o debate de temas nacionais é constante, e muitas vezes de bom nível. Nesse sentido é mais estimulante que a ALERJ. E também temos mais poder de decisão sobre questões vitais, não somos meros despachantes de luxo do governante de plantão. Mas o servilismo e a acomodação também são enormes lá. Muitos consideram que foram eleitos para substituir e não para representar o povo, e estão lá por status e dinheiro (inclusive os absurdos "extras"). O desafio é não considerar um mandato federal como um bom emprego. É serviço público temporário de utilidade social. Outra preocupação é você não descolar da base. Por isso toda semana enviamos um Boletim Eletrônico, recebemos muitas mensagens e fazemos uma prestação de contas na rua, no Centro do Rio. Em política, quem não se comunica se trumbica! Você, que está lendo esse jornal, está ligado no que o seu deputado anda fazendo?

Foi só o PT chegar à presidência que as divergências do partido tomaram dimensões nacionais. Em que corrente você se enquadra? É radical, moderado, de centro, da esquerda ou da direita do PT? Está decepcionado com a falta de unidade do partido?

Chico – Não gosto de rótulos e não pertenço a nenhuma tendência, embora as respeite. Ser petista, desde que me filiei, em 1987, é ser de esquerda, como ser radical é ir à raiz das coisas, o que é ótimo. O PT nasceu no debate, na divergência. Ali não tem obediência cega. Não tem "lulismo". Enquanto nosso objetivo estratégico estiver garantido - a luta para a construção de uma sociedade igualitária e plural, que chamamos de "socialista e democrática" - não haverá racha. Todos no PT hoje têm esse horizonte? Sinceramente, não sei. O tempo e os embates dirão. O governo Lula é um marco histórico, têm que mostrar diferença em relação à década neoliberal. Estou na linha do Manifesto dos 30 deputados, que ajudei a redigir: "nem Babá nem baba-ovo". Somos inquietos propositivos: queremos interferir nos rumos do governo, que está muito continuísta. Mas há esperança. Esse segundo semestre é decisivo.

Que avaliação você faz do primeiro semestre de governo Lula? Dê uma nota para o governo do seu partido, de zero a 10.

Chico – Seis meses de um governo de 4 anos correspondem, numa analogia com jogo de futebol, a 12 minutos do primeiro tempo. Nada decidido, mas o posicionamento do time em campo já é perceptível. Estamos muito recuados. Agora é hora de partir pra ofensiva, na agenda da retomada do crescimento econômico, geração de empregos e efetivação dos programas sociais. É inaceitável que o afã da governabilidade abafe o combate à corrupção. E certos "aliados" de direita não podem engessar nosso governo. Dou nota 6: sem brilho especial, mas não reprovado. Dá pra crescer em campo e obter uma bela vitória, sobretudo contando com a participação da torcida, mobilizada e criativa. Se os que se consideram craques esquecerem disso, é derrota certa, e os eleitores, frustrados, vão chamar a velha direita de volta.

Tuesday, June 10, 2003

 
Em tempo de amora é que se namora
Naquele tempo a colônia de Santa Rita ficava muito longe e para a gente chegar lá tinha que passar por um buracão, atravessar o córrego da Maria Baiana, cortar pelo bambuzal, subir o trilho de terra batido rodeado de arroz de bugre, picão e amor-seco, que agarrava nas pernas e bordas das calças curtas que a gente usava e hoje chamam de bermudas, até chegar ao paraíso. Tinha a casa da sede onde moravam as meninas apaixonantes, mangueiras imensas verdejando o caminho sombreado que ia até o barracão imenso de telhado alto e paredes caiadas de branco onde eram criados os bichos-da-seda. Era ali que a gente passava as tardes que não acabavam nunca, sondando ao longe, escondidos atrás do capinzeiro, as meninas brincando na grama, às vezes dando milho às galinhas, correndo de um cachorro que as perseguia latindo e pulando de contente. Os bichos-da-seda comiam as folhas de amora e a gente comia as amoras, dizendo"Você gosta de amora?, com a resposta: "Vou contar para seu pai que você namora". A gente trazia os bichos-da-seda para casa escondidos na concha da mão, dava folhas de amora e eles teciam sem parar até que finalmente se enfurnavam dentro dos casulos que eram de várias cores e a gente jogava fora, porque não sabia o que fazer com eles. Só depois, mais tarde é que descobrimos que eles faziam a seda pura e brilhante dos vestidos das mulheres distantes. E que um dia se transformavam em coloridas borboletas voejando no ar. Passou o tempo e a gente ficou para sempre no casulo, esperando contar um dia para o pai daquela menina-borboleta que a filha dele gosta de amora e nos namora.

Juvenil de Souza é pastor de nuvens que passam.