PROSOPOPÉIA

 

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Wednesday, November 27, 2002

 
Frase do dia:
"Vocês vão ser chamados pela responsabilidade e vão ter de dizer como e por que fazer", Luiz Inácio Lula da Silva às principais lideranças sindicais.

Friday, November 22, 2002

 
A mesa vai virar?
Vamos falar um pouco de futebol, já que esse blog tem respirado política nos últimos meses.
Pois bem, a queda de Botafogo e Palmeiras para a 2ª divisão infelizmente trouxe à tona a discussão sobre a virada de mesa. Ao invés de considerar a queda de um time que amargou últimas colocações em um torneio de 26 clubes algo normal, a imprensa faz um drama sem tamanho. Como se fosse um crime um grande time cair. Para piorar, não economiza nos adjetivos depreciativos para designar a Segundona, quando o mais correto seria defender uma Série B organizada, que despertasse o interesse do torcedor. Presta, portanto, um deserviço à moralidade no futebol.
Apesar de tudo, estou confiante: o regulamento será respeitado. Seria vergonhoso para o país pentacampeão mundial uma virada de mesa no principal campeonato de clubes. Tem gente apelando até para o Lula... É ver pra crer.

Pensamento do dia:
Por que que sempre quando eu quero ver as horas os relógios de rua mostram a temperatura?

Tuesday, November 12, 2002

 
Isenção, não. Transparência

Milton Temer

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva está abrindo caminho para uma amplo espectro de reflexões. Uma delas diz respeito a nós jornalistas, particularmente. É a que levanta a justa preocupação com os que, de forma oportunista, se transformam em apologistas do novo ídolo, a quem antes só endereçavam rejeição preconceituosa. E que é provocada por artigo instigante de Villas-Bôas Corrêa, publicado aqui no JB.

Quanto ao diagnóstico, não há o que contestar. Chega a ser assustador o assédio a Lula - não o popular, porque esse, mesmo eventualmente efêmero, é desinteressado. Mas o dos ''amigos do poder'', em todos os segmentos sociais, profissionais ou partidários.

É no desdobramento, na formulação sobre doutrina e ética jornalística, e na solução proposta, que está o xis do problema.

Villas-Bôas inicia seu artigo de forma contundente. ''Não posso, não devo, não quero mudar. Não vou aderir'' , antecipando a conclusão não menos provocante: ''Não sou a favor nem contra. Simplesmente não vou aderir''. A referência do que é correto estaria, então, no Compromisso com a isenção, gravado no título.

A partir daqui, peço passagem para a discordância.

Onde estaria determinado que o contraponto da adesão é a isenção? E como se mede ou se julga a isenção? Mais ainda: onde está definido que possa haver isenção onde existe avaliação emocional, sentimental, e portanto subjetiva, de qualquer episódio? Nenhum magistrado é isento, ou não haveria a possibilidade do recurso contra a decisão de sentença firmada por interpretação pessoal, e evidentemente subjetiva, de fatos objetivos. Nenhum articulista é isento. Ele pode originar sua interpretação em fatos ou dados concretos. Mas a conclusão sobre tais fatos ou dados, e de suas possíveis consequências, se dará a partir de parâmetros subjetivos que lhe são próprios. Ninguém é isento, a não ser quando se exime de tomar posição. Pode, no máximo, ser objetivo, desde que se limite à narração, sem passar à interpretação.

Quando estabelecemos o direito democrático do contraditório - cláusula pétrea do bom jornalismo -, o fazemos por admitir a possibilidade de interpretações até antagônicas sobre um mesmo ato.

Um exemplo que nos concerne está na análise da passagem de timão do presidente Fernando Henrique Cardoso para seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva. De forma absolutamente legítima é possível qualificá-la, como o fiz recentemente, nos termos de uma ''transição marota''. Porque, para além das razões objetivas que me levam à afirmação - receber, de um preocupado membro da já nomeada equipe, a informação do não fornecimento, até quinta feira à noite, da senha que lhe permitisse acessar ao menos o correio eletrônico -, há principalmente as subjetivas. São os pressupostos da intenção e propósitos de FHC, de transformar a derrota eleitoral em ganho político. O que não tira o direito de, no dia seguinte, de forma igualmente legítima, num texto em que desanca o PT, Villas-Bôas definir a mesma transição com visão oposta - ''(...) da entrega das senhas que dão acesso aos dados sigilosos. FH retoca sua biografia antes de ganhar o mundo(...)''.

Ambos exercemos transparentemente nosso papel de intérpretes de um único objeto. Mas claramente sem isenção, e com preferências explícitas. Até porque, a escolha entre FH e FHC, para se referir ao presidente da República, já representa um opção política. Todo repórter político sabe muito bem: para irritar o Planalto, use FHC ao se referir ao presidente. Não lhe agrada.

Quem tem grandes articulistas da imprensa mundial como referência sabe por que os lê. Do conservador francês Raymond Aron ao marxista inglês Eric Hobsbawm, pode-se dizer tudo, menos que sejam isentos. E aqui mesmo, por nossas plagas, quem procurava isenção, quando lia Nelson Rodrigues, Paulo Francis ou João Saldanha? Eram e são lidos exatamente pelo que previsivelmente opinavam, do futebol e da política à vida como ela é.

Aliás, se isenção, e não a transparência, fosse critério para articulistas, não estaríamos debatendo numa seção cujo título é Outras Opiniões, não é mesmo? (Milton Temer tem coluna semanal no JB)

Valeu, Zumbi...
Como passaram de feriado, meus caros? O meu foi ótimo, bem ao estilo paz e amor – com ênfase no primeiro. E amanhã temos outro feriado.

Santa Rosa...Ô terra boa!
Quem vai pra lá não trabalha,
Fica à tôa...

 
Obrigado a todos que compareceram ao churrasco "Faz um 21"! Temos que marcar mais vezes!
O Prosopopéia, que agora apoia o governo, publicará artigos para debater construtivamente com o "Fábrica de Besteiras", blog com tendências elitistas, de direita e oposicionista. Eis o primeiro de uma série...

Lula no coração do Brasil

Zuenir Ventura

Ela se chamava Socorro — Maria do Socorro Lira Feitosa. É possível que o presidente eleito se lembre dela, apesar de passados quase dez anos do acontecido. Quem a conheceu não se esquece. Tinha 32 anos, nove filhos, a cor de uma índia e a bravura de uma mãe coragem. Já havíamos descido a Serra de Garanhuns, região onde Lula nasceu, e estávamos no trevo que leva da BR-423 a Água Belas, quando ela apareceu.

Com outros colegas, cobríamos a primeira Caravana da Cidadania, do Lula, uma das experiências profissionais mais marcantes para todos nós, acredito. No total, foram sete caravanas, que percorreram 267 cidades do interior (mais tarde, de 94 a 2001, houve outras dez expedições a 120 cidades). A nossa demorou 24 dias e passou por 54 lugares e lugarejos. Sem fazer comícios, até porque ainda não era candidato, ouvindo mais do que falando, Lula pôde travar um inédito corpo-a-corpo com um país miserável e esquecido. Poucos políticos desceram tão a fundo no Brasil real. Essa “Viagem ao coração do Brasil”, como foi chamada, talvez explique o anúncio de que a “guerra contra a miséria” vai ser a prioridade de seu governo.

De repente, nossos dois ônibus foram parados por um grupo de pessoas numa elevação, diante de um cruzeiro, e assistimos à cena. Um palanque havia sido improvisado com a ajuda do carro de som da caravana, e do alto-falante saía uma voz feminina com uma determinação incomum: “Nóis num tá aqui por boniteza. Nóis tá por precisão. A gente tamus passando fome”.

Na época, abril de 1993, escrevi: “O vocabulário era de subsistência, como a vegetação daqui, onde nada é desperdiçado. A gramática era estropiada como a roupa que a oradora usava. A semântica era às vezes tão difícil quanto o sentido dessas vidas. Mas aquele discurso — aquele começo de fala principalmente, introduzindo um toque inesperado de agressiva ironia — foi um choque”.

Em poucos minutos, Socorro resumiu sua história, que já contei em outro lugar, mas acho que vale a pena contar de novo. Quando soube que a “Caravana do Lula” ia passar, ela resolveu reunir mais de cem companheiros e formou sua própria caravana. Às 11 horas da noite anterior, começaram a descer os 48 quilômetros de serra. Juntaram folhas de palma, um resto de farinha, alguns tocos de vela e se puseram na estrada, “recebendo o relento da noite”, como ela disse, parecendo uma personagem saída de “Morte e vida severina”, de João Cabral.

Eram 10 horas quando uma senhora, sob o efeito da fome e do sol, desmaiou. Socorro segurava o microfone pela primeira vez e exigia mais vagas nas frentes de trabalho, comida imediata e um caminhão para conduzi-los de volta: “Nóis num vorta a pés”. Tendo que seguir viagem, Lula deixou uma comissão chefiada pelo senador Eduardo Suplicy para acompanhar a líder dos famélicos da terra até a prefeitura, onde apresentaria suas exigências. Foram negociações tensas, porque na região estavam ocorrendo muitos saques a lojas e feiras livres. O prefeito reclamou da insuficiência de recursos, da dimensão da miséria e alegou que as coisas não podiam ser resolvidas de uma hora para outra. Foi então que ouvi pela primeira vez uma frase muito comum hoje: “A gente temus pressa”, disse-lhe Socorro, “porque quem tem fome tem pressa”.

Quem acabou resolvendo o impasse foi Suplicy, tirando dinheiro do bolso e exigindo que todos os presentes, inclusive o prefeito e os secretários, fizessem o mesmo. Com isso compraram 300 pães e alugaram um caminhão. Quando Socorro voltou ao trevo para anunciar que tinha conseguido condução e comida, o grupo inicial havia dobrado: agora eram cerca de 200 famintos debaixo de um sol inclemente de quase meio-dia.

Eu nunca tinha visto tantas pessoas juntas com fome. Num país onde há 40 milhões de indigentes, não é difícil encontrar crianças e adultos nas ruas das cidades sem ter o que comer: há sempre um na esquina pedindo esmola ou um prato de comida. Dando um real aqui, um sanduíche ali, temos a sensação de que resolvemos o problema, pelo menos o de nossa consciência culpada.

O que havia de novo e assustador naquela situação era a quantidade de famintos. Como saciar aquela fome endêmica?

Por várias vezes, Lula declarou o quanto essas caravanas foram importantes para o seu aprendizado de Brasil. Chega a dizer que elas são a universidade que ele não freqüentou. Um geógrafo, o professor Aziz Ab’Saber, que acompanhou quase todas as viagens, considera também a experiência como o melhor diploma que o presidente eleito poderia obter.

Pelo impacto que o “episódio do trevo” causou então em Lula, acho que a principal lição desse curso supletivo ele aprendeu com Maria do Socorro, cujo destino não se sabe qual foi. Ele hoje tem consciência de que o país o elegeu não por boniteza, mas por “precisão”.

Saturday, November 02, 2002

 
Viva 9 de novembro!
Amiguinhos e amiguinhas! Sábado, dia 9, eu e o Paulão vamos promover um churrasco na casa do Chicão, a partir de 12h30m. Todos convidados!